UMA
ENTREVISTA COM PAULO, O APÓSTOLO
No
moderno mundo das comunicações, ficamos imaginando como
seria a postura dos homens que foram comissionados pelo Senhor Jesus
para implantarem Sua Igreja no mundo.
Se,
por exemplo, Paulo fosse entrevistado por uma revista evangélica
de grande circulação dos dias atuais, o que diria? Não
custa nada imaginar... Afinal, temos em mãos muitas cartas que
traduzem o que ele pensava e evangelhos que relatam o que o seu
Senhor ensinava.
No
entanto, propomos a você aprofundar a imaginação.
Vamos supor que seja concedido ao jornalista da revista a possibilidade de
viajar no tempo e, por alguns dias, viver no primeiro século, voltando à
nossa presente época depois dessa inusitada experiência
tempo-espacial.
Imaginemos,
então, a hipotética entrevista...
REVISTA: Apóstolo
Paulo, é um grande prazer entrevistá-lo.
Sem dúvidas, essa é a entrevista mais importante que eu
já fiz. Afinal, nunca antes alguém conseguiu viajar no
tempo!
PAULO: É uma
honra estar aqui e poder comunicar-me com as milhares de pessoas que leem
esta revista. É uma experiência preciosa falar a elas sobre
a Graça de Deus. Tenho aproveitado todos os meios e oportunidades
possíveis
para pregar o Evangelho e essa revista deve alcançar muitas pessoas.
Sobre a questão
de viajar no tempo, para Deus nada é impossível. Ele não
está
limitado às leis da natureza. Tempo e espaço para Ele
não são barreiras.
Conheço,
inclusive, um homem que foi arrebatado ao paraíso e ouviu
palavras inefáveis, que ao homem não é lícito
falar (II Coríntios 12:1-4). Acontecimentos de translação
de pessoas são conhecidos. Você já tomou conhecimento sobre
o que ocorreu com Felipe depois de falar com o eunuco?
REVISTA: Sim,
já li sobre isso. Essa narrativa está no
livro de Atos... Apóstolo, você se tornou o líder
de uma nova forma de viver as questões religiosas, de entender
a Graça de Deus. Como se sente a respeito disso?
PAULO:
Devo
dizer que não são líder. Na verdade, sou um
servo do verdadeiro e único líder, Jesus Cristo. Ele é
o cabeça da Igreja. Todos nós somos membros com as mais
diversas funcionalidades.
REVISTA:
Mas, apóstolo Paulo, você não tem se destacado em
plantar igrejas em várias cidades e deixar nessas igrejas
pessoas que exercem liderança sobre as outras?
PAULO: Antes
de responder sua pergunta, tenho notado desde que nos encontramos aqui,
mesmo antes do começo da entrevista, que
você me trata sempre como "apóstolo". Veja,
a palavra "apóstolo" quer dizer apenas "enviado" em
grego. É assim
que na Igreja são conhecidos aqueles
que têm sido comissionados pelo Senhor para plantar novas
igrejas em outros lugares. Porém, esse termo não faz parte de
nossos nomes nem o consideramos um título.
Nosso
Senhor nos ensinou a tratar-nos como irmãos e a dispensar os
títulos (Mateus 23:6-11). Tudo o que servir para destacar uns
sobre os outros, ou trazer a supremacia de uns sobre os outros, deve
ser rejeitado, pois não faz parte do Evangelho ensinado por
Jesus.
Um
pouco de fermento serve para levedar toda uma massa. Então,
começa-se a dar títulos eclesiásticos aos
homens, a considerá-los especiais, a considerá-los
superiores e mais santos, e, quem sabe, daqui a algum tempo, alguém
poderá intitular-se "pai" da Igreja, "arqui" ancião ou até
"semi-deus"... O quê?... Ah!... Posso ver em seu semblante
e em seus olhos baixos que isso já está ocorrendo em sua
época...
É
engraçado. Tenho notado que você, antes da entrevista,
chamou Jesus simplesmente assim: Jesus. Sem títulos. Por que
então eu mereceria um título? Pode me chamar de Paulo
mesmo. Eu sou seu irmão em Cristo. Existem irmãos mais
maduros e os menos maduros. Os que são mais experientes devem
guiar e discipular os menos e todos devem edificar-se mutuamente. Esse é
o fundamento do uso dos dons ministeriais.
Não é uma
hierarquia vertical de liderança humana, mas uma comunhão entre
irmãos
que se ajudam e edificam mutuamente, segundo o seu grau de maturidade
em Cristo.
REVISTA: Desculpe. É que
de onde eu venho, os líderes, desculpe, os "servos mais maduros",
costumam sempre ser tratados e muitas vezes a exigir ser tratados
com esses títulos.
Nunca falamos com eles ou sobre eles sem esses títulos. Eles
são conhecidos pelos títulos, entende?
O
curioso é que pessoas como você, lá no século
21, às vezes são tratadas apenas pelos seus nomes,
sabia? Geralmente chamamos Pedro de Pedro, João de João
ou Tiago de Tiago. Porém, quando a pessoa está viva,
geralmente usa-se essa forma de tratamento...
PAULO: Bem,
eu entenderia isso se a Igreja fosse uma instituição
humana, onde hierarquias e aparências são importantes e,
consequentemente, os títulos também. Mas isso não
se aplica ao Corpo de Cristo, que é a Sua Igreja.
O
que há na Igreja são dons e ministérios que o
Espírito Santo dá a cada um conforme a Sua vontade. Não
há cargos nem títulos. Apenas dons e ministérios
para edificação mútua, dons e ministérios
que nunca devem ser usados para manipulação ou para
controle sobre as pessoas, nem para ostentação
particular. Quem assim fizer, está fora do Espírito do
Evangelho que tenho pregado e sobre o tal o juízo é certo, caso
não
se arrependa.
REVISTA:
Foi bom você mencionar o assunto "Igreja".
Estou no século primeiro há alguns dias e não vi
diferentes denominações cristãs nem locais com
placas sinalizando onde funcionam essas denominações.
Por que isso?
PAULO: Denominações?
O que significa isso?
REVISTA: Você não
sabe? São grupos de irmãos que
criam uma instituição, às vezes reconhecida pelo
poder público. Esses irmãos adotam um nome para
diferenciá-los de outros e corriqueiramente colocam esse nome nos
locais onde se reúnem. Geralmente, há diferenças
doutrinárias entre as denominações e muitas
disputas entre elas. Uma denominação surge quando outra
anterior se divide ou quando há contendas entre os irmãos.
PAULO: Isso
que você está me relatando deixa meu coração
muito triste! E eu pensava que os gálatas eram insensatos... O
que pensar disso? Meu Deus! Como vocês chegaram a esse ponto?
Como poderão ser perfeitos em unidade, assim como o Filho e o
Pai o são? (João 17:21-23)
Alguns
anos atrás, escrevi uma carta aos irmãos na cidade de
Corinto. Lá havia uma gritante divisão entre os irmãos
e eles começaram a colocar em prática isso que você
chama de "denominação". Uns diziam ser de
Pedro, outros de Apolo, outros meus seguidores e o quarto grupo dizia
ser de Cristo. Eu os repreendi no Espírito, mostrando-lhes que
Cristo não está dividido e que esses sentimentos
sectários se originam da carne.
Eu
não consigo entender isso que você me narrou. Várias organizações
com placas diferentes e muitas vezes concorrendo entre si... Só me
resta repetir aos irmãos
que lerão essa entrevista as palavras que escrevi à Igreja em Corinto
(I Coríntios 3:1-23). Que o Senhor tenha
misericórdia e os guie ao pleno entendimento do Evangelho. A
contenda entre os irmãos e a divisão do Corpo são
coisas abomináveis ao Senhor!
REVISTA: Mas,
os tempos mudaram apóstolo, digo, irmão Paulo. No
século IV começou a surgir uma grande
institucionalização da Igreja. Naquele tempo, a Igreja
começou a relacionar-se com o poder político e
religioso do corrompido Império Romano e surgiu a primeira
denominação, chamada Igreja Católica Romana, a
qual assumiu a supremacia sobre as demais. A Igreja passou depois a
ser considerada a religião oficial do Império. A partir
daquela época, paulatinamente, o modo como vocês vivem
hoje a sua fé, sem denominações e grandes
estruturas, se perdeu, dando origem às práticas que a
maioria das igrejas adotou.
No
século XVI, um homem que leu suas palavras escritas aos irmãos
em Roma, "o justo viverá da fé" (Romanos
1:17), se levantou contra tais práticas errôneas e
tentou reformar essa igreja romana, se opondo a vários desvios
que ela havia adquirido ao longo dos anos. Isso deu origem a um
movimento chamado "protestantismo".
Apesar
desse movimento, muitas práticas diferentes das que vocês
usam aqui no século I foram mantidas, como a necessidade de
um nome para denominar a reunião dos irmãos em Cristo,
a construção de imponentes templos, a prática contínua de conluios com o poder
político,
o apego religioso às liturgias, a necessidade de pompa e grandes estruturas,
de homens especias (clero) e de dias especiais.
PAULO: O
Senhor nos revelou há uns anos que haveria uma grande
apostasia e iniquidade. Eu, inclusive, lembrei isso numa carta que
escrevi aos irmãos em Tessalônica (II Tessalonicenses
2:3). Quando me despedi dos anciões de Éfeso, senti do
Espírito Santo dizer-lhes que, depois da minha partida, lobos
devoradores surgiriam na Igreja (Atos 20:29). Também escrevi,
sob a direção do Espírito Santo, recentemente a
Timóteo sobre essa questão (I Timóteo 4:1). Agora
vejo como isso se cumprirá...
Por
que vocês não conseguem viver na simplicidade que
vivemos o Evangelho? No partir do pão na casa dos irmãos,
na comunhão constante, sem o domínio de uns pelos
outros, mas reconhecendo os diversos ministérios pessoais e
dons que o Espírito Santo dá àqueles que
pertencem a Cristo para edificação da própria
Igreja?
Foi
com base nesses princípios comunitários que o Senhor Jesus viveu
durante mais de tres anos com os Seus
discípulos na Palestina. Por que vocês não podem
viver isso?
REVISTA: Olhe
Paulo, creio que não é tão simples assim.
Desculpe a sinceridade, mas creio que isso é uma utopia para o
século 21. As coisas mudaram. Hoje, as cidades são
megalópoles, com vários milhões de habitantes.
As pessoas já não têm mais comunhão umas
com as outras em seus lares como antes. As formas de relacionamento
mudaram muito e as pessoas ficam cada vez mais centradas em si
mesmas. Precisamos de templos para abrigar milhares de pessoas,
vindas de lugares distintos.
Elas reservam
um dia ou dois na semana para, durante alguns minutos, ter comunhão com
os irmãos.
Porém, sempre é algo muito rápido,
pois a vida é bastante corrida. Não dá para aprofundar-se muito em
conhecer os outros
irmãos, sabe? Além disso, muitos vão
aos templos apenas para satisfazer suas necessidades pessoais, porque assim
são ensinados. Esse modelo que
você
vive aqui no século I seria, creio, inviável com o
estilo de vida das pessoas no século 21!
PAULO: Não
entendo por que você diz "precisamos" de
templos. Na verdade vocês não precisam de templos, mas
de comunhão, pois vocês mesmos são os templos (I
Coríntios 6:19). Nada contra ter um local mais amplo para
reunir um grande número de irmãos. Eu, inclusive, há alguns
anos, tive que alugar um local mais amplo por algum tempo numa
cidade,
para comportar o número de pessoas que iriam ouvir sobre o
Evangelho naquela ocasião.
Porém,
o grande problema que vejo, através do que você tem me
relatado sobre o futuro, é que a tendência natural do
homem é assumir uma relação religiosa com o
templo, nos moldes que as religiões têm com os seus
templos, considerando-os "lugares sagrados" e inculcando
nos fiéis que aquele lugar é mais especial e consagrado
que o nosso lar, a rua, o campo, a montanha, uma praça pública
ou uma praia. Esse princípio não faz parte da Nova Aliança
que o Senhor nos deixou.
A Igreja não é o
local físico, mas a reunião dos irmãos em Cristo. Não
podemos fazer acepção de lugares para pregar e viver o Evangelho. Até mesmo
nas sinagogas dos judeus, assim como o Senhor fazia, eu tenho pregado quando
me dão essa chance, pois lá existem pessoas que necessitam ser evangelizadas
e
conhecer
a Graça de Deus.
Não
existe um "modelo" de Igreja. O que existe é uma vida, sendo
vivida a cada instante de forma orgânica.
REVISTA: É... Faz sentido... Contra fatos não há
argumentos. Mas, e o templo em Jerusalém? Ele não foi
mostrado por Deus e frequentado pelo próprio Senhor?
PAULO: O
Templo em Jerusalém é uma sombra do que estava
reservado a nós na Nova Aliança. O véu que
separava o santíssimo lugar do resto do templo foi rasgado e
isso significa que hoje nós temos comunhão com o Pai
através de Jesus Cristo. Como já disse, o templo somos
nós, onde Deus habita. Não um templo feito por mãos
humanas, mas pelo próprio Deus. Você se lembra do que
Jesus disse à mulher samaritana? Adorar a Deus em Espírito
e em Verdade (João 4:19-24).
O
Senhor profetizou que esse templo será destruído (Nota: O
Templo realmente foi destruído alguns meses após esta imaginária entrevista). Aquilo
que é corruptível
foi substituído
pelo que é incorruptível. As pedras físicas foram
substituídas pelas pedras espirituais. O irmão Pedro
tem ensinado que nós somos pedras espirituais, edificados em
Cristo e que nesse templo os verdadeiros sacrifícios devem ser
feitos (I Pedro 2:5).
REVISTA: Sinceramente,
fica um pouco difícil entender isso aplicado à
nossa época. Como fica, por exemplo, o controle da parte
administrativa da igreja, a manutenção dos trabalhos, a
ação social, a doutrina, a prática dos
ministérios, a santa ceia, batismo, e tantas outras coisas?
Não vejo como realizar tudo isso sem a presença de uma
instituição ou denominação, com um corpo
eclesiástico bem definido.
Isso
que você propõe, até pode ser possível
aqui no século I, quando a Igreja apenas está começando sua caminhada,
mas você não
crê que
geraria uma grande desordem no século 21? As ovelhas não
ficariam sem pastor, sem um local de referência aonde ir?
PAULO: Não
entendo essa ânsia de controle organizacional humano
que você está relatando. A Igreja é de Cristo e
quem a controla é o Espírito Santo. É o Espírito
Santo quem dá o crescimento à Igreja e levanta aqueles
que Ele quer nos diferentes ministérios pessoais dentro da
Igreja (Efésios 4:11, I Coríntios 12:1-31).
Literalmente,
quem toma as decisões na Igreja é o próprio Cristo e tudo o que for acordado
dentro da Igreja deve ser feito com a participação de todos os que estiverem
presentes, como
um Corpo.
Também
não entendi sobre a questão da manutenção
dos trabalhos e da ação social. Você sugere que é
necessária uma instituição para gerenciar isso?
Por que seria necessária uma instituição para
levar minha oferta a quem precisa dela? Para levar o meu pão a
quem está faminto? A que "manutenção" você se
refere se não há estruturas físicas
a serem mantidas, mas sim pessoas a serem ajudadas?
Veja
como é simples. Se temos comunhão uns com os outros,
saberemos as reais necessidades uns dos outros e assim teremos a
ocasião de ofertar de forma amorosa e voluntária. Se
algum pregador ou pastor não estiver trabalhando, teremos a
ocasião de ofertar na vida dele. Se um irmão estiver
desempregado, ofertaremos e não o deixaremos passar por necessidades. As viúvas
e os órfãos
serão acolhidos por nós em nossas casas. Não
podemos terceirizar na Igreja aquilo que nós devemos fazer
como pedras vivas.
Por
que é necessária uma instituição para
celebrar a ceia, se a ceia é o partir do pão e o beber
o vinho quando nos reunimos com os irmãos para fazer nossas
refeições todos juntos, lembrando o sacrifício
de Cristo? Por que precisaríamos de uma instituição
para batizar pessoas, se o Senhor já autorizou os membros de
Sua Igreja a irem por todo o mundo, pregando e batizando e ensinando
aquilo que Ele compartilhou conosco?
Porém,
se não houver comunhão sincera entre os irmãos,
então a presença de uma instituição que "gerencie" as
ações da Igreja parece fazer
sentido...
REVISTA: Mas,
nem todas as pessoas estão maduras para isso. Nem todas
têm esse grau de maturidade para viver o Evangelho nesses
padrões. Muitas pessoas precisam de ajuda espiritual e um
local onde sentir-se acolhidas.
PAULO:
Sim, é por isso que a comunhão na Igreja deve ser
constante. Os mais maduros devem guiar os menos, para que esses, por
sua vez, se tornem maduros também. Tenho ensinado isso em todo
os locais. Inclusive, escrevi a Timóteo sobre essa dinâmica espiritual
(I Timóteo
2:1-2). Isso não depende das estratégias humanas nem do
controle de homens, mas unicamente do Espírito Santo. Pode parecer fácil,
diante das complicações e acréscimos que você tem
me relatado. Porém, creia,
não é. Ser Igreja significa renunciar a si mesmo e viver para
Cristo. É não
colocar a responsabilidade da Obra numa organização ou em outras
pessoas, mas agir pessoalmente, como servo.
A
Igreja não deve se conformar com as práticas religiosas
deste mundo, onde um pequeno número de pessoas "especiais" fica
toda a vida intermediando entre a deidade e as pessoas e onde essas pessoas
são mantidas num constante estágio de
imaturidade e infantilidade, para que os homens especais não
corram o risco de perderem suas posições...
Esse
não é o Espírito do Evangelho! O Evangelho de
Cristo nos traz crescimento e maturidade, para pregar e ensinar o
Evangelho a toda criatura. Nós temos a mente de Cristo e quem
é de Cristo pode discernir bem todas as coisas. Todos deveriam
ser ensinados e estimulados a viver nesse constante processo de
crescimento e maturidade. Isso não quer dizer viver fora da
comunhão com os irmãos, mas, pelo contrário,
expressar de forma mais salutar e edificante para os outros essa
comunhão, que independe de lugar e de instituição.
Porém, o mais importante na vida da Igreja é a comuhão
com o Senhor e entre os irmãos. Nunca, em hipótese
alguma, devemos deixar de congregar com nossos irmãos. É preferível
permanecer naquilo que você chama de "denominação" do
que ficar sem congregar.
REVISTA:
Agora que você está falando sobre isso, me vêm
à memória que nos últimos tempos, lá no século
21,
há
um considerável movimento de irmãos se reunindo nos
lares. É isso que vocês fazem, não é?
PAULO: Não
se trata de reunir-se nos lares ou em templos. Se trata de comunhão.
Não tem a ver com locais, mas com
entendimento do que verdadeiramente é Igreja. Se alguém
tiver o lar como um "lugar especial" também estará incorrendo
no mesmo erro de quem considera um templo como lugar especial...
Não
estou falando sobre formas, mas sobre essência. Se alguém
transferir esse institucionalismo que você fala ou a divisão
entre o Corpo que você mencionou para as reuniões nos
lares, de nada vai adiantar. Haverá apenas uma transferência
física das mesmas práticas.
Se
trata de comunhão. Ter comunhão permanente e sincera
com os irmãos. Se trata de ser Igreja em qualquer lugar ou
ocasião, de exercer nossos dons ministeriais e espirituais onde quer
que estejamos. A Igreja somos nós.
Se essa convicção
não vier de dentro do coração, através do
Espísito que em nós habita, de nada valerá e não
passará de um mero modismo passageiro.
REVISTA: Bom,
vamos mudar um pouco de assunto... Vejo que vocês
enfrentam muitas perseguições. Você está
preso aqui em Roma. Dizem alguns que sua execução está
próxima... Em nossa época, a Igreja tem sofrido
muitos embates do poder público. Porém, nos países
em que ela não tem uma representatividade institucional,
parece que a perseguição é mais cruel e muitos
irmãos são perseguidos e morrem. Por isso, temos nos
levantado para conscientizar o povo cristão a instituirmos
representantes oficiais nos altos escalões do governo e no
poder legislativo. Assim, a Igreja ficará longe dessas perseguições
e poderá crescer, conquistando territórios e poder.
PAULO: Deixe
ver se entendi. Você diz que a Igreja precisa de
representantes políticos para mantê-la afastada daquilo
que o próprio Senhor revelou e tem nos revelado que viria
sobre a Igreja?
O
que temos aprendido de Cristo é que todo aquele que quer viver
a Verdade do Evangelho sofrerá perseguições e
poderá perder a própria vida (II Timóteo 3:12).
O Mestre disse que o servo não é maior que o seu senhor
(João 15:20). Por isso, não consigo entender essa
aversão que você demonstra à perseguição.
Temos visto em nossos dias que, enquanto mais perseguida é a
Igreja, mais ela cresce. Aqui em Roma já temos milhares de
irmãos, apesar da perseguição de Nero.
Muito
menos, entendo o fato da Igreja ter oficialmente representantes
políticos. Devemos orar pelas autoridades e obedecê-las
até o ponto em que elas não se coloquem contra a
Verdade (Romanos 13:1-4, Atos 5:29). Se algum irmão tem
pretensões de assumir individualmente um cargo público,
que ore ao Senhor e faça conforme a vontade Dele. Porém,
a Igreja não tem nada a ver com o poder temporário
deste mundo e não deve envolver-se nos processos políticos humanos. O Senhor
Jesus jamais nos ensinou a buscar isso nem a manter relações
de interesses com o poder imperial. Ele sempre ensinou que o nosso reino não é este
que o mundo oferece. Nossa esperança não é a solução
política dos problemas, mas nossa bem-aventurada esperança
é a volta Dele para instaurar o Seu reino (Tito 2:11-13).
Pelo
que você está narrando desde o começo, grande
parte da apostasia na Igreja se deve a essa relação
maligna entre o poder político humano e a Igreja. O pecado não
será combatido através de leis nem de autoridades
humanas. Apenas o Evangelho tem esse poder de transformar vidas e
práticas. A lei não tem poder de dominar os impulsos
pecaminosos da carne (Gálatas 5:16).
Então,
como diz o irmão Pedro, quem estiver sofrendo perseguições,
que se alegre no Senhor por isso (I Pedro 4:13-19). Toda vez que o
servo do Senhor é perseguido pelo poder institucional neste
mundo, é um bom sinal de que ele está no rumo certo
(Mateus 5:10-11).
REVISTA:
Ainda bem que estaremos livres da grande perseguição
do anticristo...
PAULO:
Como?
REVISTA: Estou
falando sobre o arrebatamento, que você tão
maravilhosamente narrou em sua primeira carta aos irmãos em
Tessalônica. Seremos arrebatados para não enfrentar a
grande tribulação e isso pode ocorrer a qualquer
momento, num "abrir e fechar de olhos"!
PAULO:
Arrebatamento para não enfrentar a tribulação?
Mas eu não ensino isso! Quando escrevi aos irmãos em
Tessalônica, deixei bem claro para eles que a vinda do Senhor
Jesus seria um momento maravilhoso para derrotar o anticristo e
dar-nos alívio definitivo da tribulação (II
Tessalonicenses 1:7-10). Numa carta anterior, descrevi para eles o
que ocorrerá no arrebatamento (I Tessalonicenses 4:16-17). No entanto,
apenas lembrei a eles o que o Senhor tinha ensinado alguns anos atrás
aos irmãos no Monte das Oliveiras (Mateus 24:30-31).
Tempos
depois, apareceram nas regiões próximas a Tessalônica
e na Ásia Menor pessoas ensinando a respeito da vinda de Jesus
como algo que ocorreria a qualquer momento. Então, eu lhes
escrevi para que não fossem enganados, ensinando-lhes que a
volta do Senhor e nosso encontro com Ele não se dariam antes da
apostasia e da revelação do anticristo. Eu me baseei
nas palavras do Senhor, o qual profetizou que haveria aumento da
iniquidade, esfriamento do amor ágape por parte de muitos
(Igreja) e que aconteceria a abominação desoladora no
lugar santo, que será a revelação do anticristo
(Mateus 24:12-15).
Sobre
o "abrir e fechar de olhos", essa foi uma revelação
que o Senhor me deu. Eu me refiro à glorificação,
que é a transformação de nossos corpos
corruptíveis em corpos incorruptíveis. Isso ocorrerá
num átimo de segundos, muito rápido, num abrir e fechar
de olhos. Eu escrevi sobre isso aos irmãos em Corinto e não
estava falando do arrebatamento em si, mas da glorificação
corpórea que ocorrerá como parte da vinda de Cristo (I
Coríntios 15:50-52).
REVISTA:
Então a Igreja estará aqui no período
tribulacional, onde muitos serão perseguidos e mortos de forma
cruel???
PAULO:
Não vejo o motivo para sua surpresa... Olhe para o meu
corpo, para as marcas que trago. Olhe em volta. Vá um dia
desses ao circo romano e veja o que Nero está fazendo com os
nossos irmãos. Se informe sobre os irmãos que ele está
queimando vivos em seu jardim, como se fossem tochas. Reflita sobre o
que me espera. Eu sinto que o fim da minha carreira está
próximo, muito próximo. Nada disso deve
surpreender-nos, pois assim o Senhor já nos mostrou. Aquilo
que fizeram com Ele, poderão fazer conosco também (João
15:20).
Fico
preocupado com esse novo ensinamento que penetrou no seio da Igreja
em seus dias. Quando isso começou a ser ensinado? Tal doutrina
pode deixar muitos irmãos despreparados e desinformados sobre
os acontecimentos que virão sobre o mundo...
REVISTA:
É irmão Paulo... Em vista de tudo isso, creio que
precisamos de uma nova reforma!
PAULO: Creio
que "reforma" não seria a palavra mais
apropriada. Veja o que muitos irmãos querem fazer hoje. Eles
querem fazer uma "reforma" na religião judaica
para adaptá-la à mensagem do Evangelho de Cristo. Eu
tenho me levantado contra isso e tenho sido perseguido em
praticamente todas as cidades por esses judaizantes.
A
Graça de Deus é muito mais abrangente do que uma
religião. Às vezes, é difícil entender e
viver isso. Até o nosso irmão Pedro, em certa ocasião,
teve dificuldades em viver isso e eu o repreendi amorosamente em
Cristo (Gálatas 2:11-16). Como ensinou o Senhor, não se
pode colocar um remendo novo numa roupa velha, num um vinho novo num
velho odre (Lucas 5:36-39).
O
processo de "reforma" que você mencionou, pelo que
apreendi das entrelinhas de suas palavras, só fez trazer
melhoras pontuais. Porém, a essência de muitas práticas
e a mentalidade religiosa continuou mesmo após a reforma
mencionada por você. Isso ocorre porque as coisas espirituais
só podem ser discernidas espiritualmente (I Coríntios
2:14). Não adianta levantar teses, expor ideias, se não
houver uma consciência criada pelo próprio Espírito
da Verdade no coração de cada um.
Sinto
que as organizações humanas que você chama de "denominações",
apesar de não
estarem de acordo com a reta compreensão do que é
comunhão e unidade do Corpo, têm sido permitidas pelo
Senhor para que Seu Evangelho seja pregado. O Amor e a Graça
de Deus são incalculáveis e nós não
podemos limitá-los. Porém, devemos crescer
constantemente na Graça e no Conhecimento, esquecendo-nos das
coisas que ficaram para trás e avançando para as que
estão adiante, prosseguindo para o alvo... (Filipenses 3:14).
C
reio que o
que vocês precisam é de uma restauração que nasça do Espírito. Não um modismo,
posto que os modismos perecem.
REVISTA:
Que o Espírito Santo nos guie a toda a Verdade! Que
possamos não apenas viver partes dessa Verdade, mas vivê-la
em toda a sua plenitude. Sinto que fui edificado e a partir de agora
estou disposto a viver essa comunhão com todos os meus irmãos
em Cristo. Sem barreiras religiosas e humanas.
PAULO: Eu
agradeço pela sua presença aqui comigo. Fui
edificado por você também. Saber que a Igreja, apesar
das apostasias, tem permanecido durante séculos, me traz
alegria no Senhor. Ele sempre levantará Seus servos em cada
geração para trazer a Verdade eterna. O Espírito
que está comigo é o mesmo eternamente. Foi muito bom
participar deste culto a Deus com você.
REVISTA:
Culto? Não entendi... Apenas somos nós dois aqui
nesta cela de prisão. Não houve uma liturgia. Não
houve louvores e pregação da Palavra. Por que você disse
culto?
PAULO: Não estivemos aqui em nome de Jesus? Não somos Seus
discípulos e Seu Espírito não habita em nós
onde quer que estivermos? Certa feita, Ele disse que onde quer que
dois ou três se reunissem em Seu Nome, ali Ele estaria!
Tenho
observado algo nas cidades por onde tenho andado pregando as boas
novas... As pessoas separam suas vidas pessoais da vida religiosa. É
comum ver as pessoas falando, conversando nas ruas antes de entrar
nos templos das deidades. Porém, quando entram, assumem uma
postura totalmente nova. É como se fossem outras pessoas. As
palavras mudam e se tornam mais solenes. Os semblantes também,
tornando-se mais contritos. Os gestos são outros...
É
como se elas pensassem assim: Vou viver minha vida e separar alguns
minutos da semana ou do mês para apaziguar a deidade, através
de algumas liturgias, ofertas e orações... Se minha
oferta for grande, pode ser até que a deidade me abençoe...
Se for mais vezes, terei mais graças da divindade... Essa é
uma prática que tenho observado nos templos pagãos nas
cidades pelas quais tenho passado.
O
Evangelho de Cristo nos propõe algo radicalmente oposto. A
mensagem de Cristo é centrada numa comunhão íntima
e contínua com Ele, independente do lugar e da ocasião.
Não é um jogo de interesses, mas uma relação
de amor. Pelo que você tem me relatado, muitos na Igreja têm
entrado por um caminho pagão de relacionamento com Deus. Que o
Senhor lhes abra os olhos espirituais para que possam discernir a
Verdade.
Nossas
vidas devem ser um culto constante ao Senhor, pois o templo somos nós
e o Sacerdote é o próprio Senhor.
REVISTA: Amém! Espero algum dia voltar ao século 21 e publicar
esta entrevista. Espero que os que a lerem possam meditar sobre o que
foi dito aqui.
PAULO: A graça
e a paz do Senhor sejam com todos vocês. A volta do Senhor está próxima.
Obs: Cremos
que essa entrevista, se fosse real, seria censurada na maior parte das
revistas denominadas "cristãs", pois feriria enormes
interesses. Talvez fosse censurada na revista do hipótético
entrevistador. Como não
temos interesses humanos e institucionais a preservar, decidimos postá-la
aqui, mesmo sendo imaginária...
Maranata,
Jesiel
Rodrigues
_____________________________________
Saiba que o Senhor está no controle de tudo e de todos. Mesmo nos momentos
mais difíceis, Ele estará conosco. A nossa salvação
em Cristo é eterna. Nele, somos novas criaturas. Ele já venceu
a morte. O Senhor é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente
na tribulação. Se você leu este artigo e ainda não
tem a certeza da salvação eterna em Jesus, faça agora mesmo
um compromisso com Ele! Convide-o para entrar em seu coração e
mostrar-lhe a verdade que liberta. Veja porque você precisa ser regenerado
e justificado, para viver a boa, perfeita e agradável vontade eterna do
Criador e estar firme Nele diante de qualquer circunstância. Clique
AQUI.
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